quarta-feira, 14 de julho de 2010

Hamiltão ataca de frente presunçosos que acham que podem “melhorar” a obra alheia. Aqui, estilos, métricas e... as implicâncias de sempre



A chave perdida

Meio que estuporado, sinto necessidade de revisitar (e revisar) alguns dos meus textos publicados. Meio que desmemoriado, às vezes não me lembro se já escrevi ou não sobre determinado assunto.
Então, inseguro e avesso a repetições que não acrescentam, saio à procura da chave do baú, que pode ser mesmo uma simples palavra.
... Quezinho mais inútil, hein?, esse depois do Meio. Mas o leitor entende: isso é coisa de estilista. No bom sentido.
Por falar em estilista (puxando para o outro sentido), lembro-me de Mário Jorge, bicha oxigenadíssima que trabalhava, como eu, para Abrahim, Irmão & Cia., em Manaus.
MJ era metido a compositor e quis musicar poema deste mísero cronista (que naquele tempo detestava crônicas, como hoje – só que não era obrigado a escrevê-las).
Sucede que então eu estava numa fase de transição do (penso) simbolismo para o parnasianismo, ou vice-versa, sei lá.
Só sei que, como hoje, eu ficava puto se alguém ousasse mexer no produto deste pobre contudo ponderado intelecto, que desavergonhadamente assume (e às vezes acha por bem manter) os seus erros.
Veja bem, rigorosíssimo leitor: MJ foi escolher logo um soneto em versos alexandrinos, cada qual com a cesura devidamente assentada na sexta sílaba.
Na verdade, só quero aqui demonstrar o quanto era exigente comigo, mas os versos bem que poderiam ser decassílabos. (Minha memória só se ocupa quase exclusivamente de uma coisa, nesta crudelíssima fase de abstinência sexual forçada.)
Não importa. O que importa é que MJ resolveu melhorar o soneto sonetíssimo. A convencida bichinha foi aveadar logo o troço mais caro para um bilaquiano: a chave de ouro. Em lugar dela, colocou lá um versão de pé quebrado.
Nunca fui bilaquiano, é fato. No entanto, prezava uma chavinha de ouro rigidamente metrificada. Então fiquei fulo. Para a coisa me matar só faltava a música fazer sucesso.
Como fez “Canteiros”, de Raimundo Fagner, bom moço que deve doar os direitos autorais a alguma entidade sem fins lucrativos.
O nordestino montou num poema de Cecília Meireles e substituiu um verbo por outro que ele deve ter considerado mais exato.
A autora de Mar Absoluto havia afirmado que vira (“tenho visto”) muitas coisas, menos a felicidade. Mundinho corrigiu: “... tenho tido muitas coisas...” Inclusive um processo nas costas.
A família da poeta – poeta que já fora chamada justamente de “a exata”, se não me engano pelo aprendiz de compositor Manuel Bandeira – sentiu que o criativo letrista não deveria ter “melhorado” o premonitório poema que, musicado por ele, virou hino de estudante de comunicação.
A canção de MJ não fez sucesso e, pelo que deduzo, se calou para sempre. Pelo menos, até hoje, não recebi nenhum – atenção, parceiros (de composição) que vieram depois –, nenhum direito autoral.
Certa tarde de domingo, como não havia na época programa do Faustão, fui aborrecer-me na casa do colega (de trabalho). Encontrei-o cuidando do mise-en-plis.
Depois da costumeira sessão de maledicências, com a participação ativa (meu deus) de todas as “trêfegas” presentes, tive que me submeter, ainda, a um show de interpretação de MJ, que deu de cantar a música de sua lavra (meu deus).
No que ele chegou à altura em que deveria estar a minha preciosa e máscula chave de ouro – ou seja, embaixo, no último verso do soneto –, caí em profunda depressão.
Atacado de autopiedade, concluí, e para sempre: “Ninguém me entende.”
Meio desmemoriado, meio estuporado, mas livre de queísmo, vou dar uma chegadinha a algumas das crônicas lá de trás – e revê-las com a circunspecção de sempre. Talvez assim consiga melhorar o estilo.

Hamilton Carvalho
(Gazeta de Goiás, nº 115, 10/10/1999)

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