segunda-feira, 11 de março de 2013

Há lembranças das quais não se pode – e não se quer – fugir. É a lição de hoje do brilhante cronista

                                                                                                        [Plein Soleil/Divulgação]


Alain, o galã

A asma me traz sempre a lembrança da professora de francês, mais exatamente quando passo a sentir o efeito do medicamento. O espírito parece que paira acima do corpo macerado pela crise que o deixa, e isso é normal. E me entrego à doce maconha do momento.
O que não é normal, prezado leitor, é que hoje eu me lembre de Alain, figura protuberante que contrasta de forma chocante com a da professorinha da Escola Normal. O fato se explica, no entanto, a partir de conversa que tive com um amigo num desses bate-papos via internet. Falávamos do nosso trabalho de tempos atrás, tempos dificílimos de salários em atraso.
Na conversa, grafei “Alaim” ao me referir a um colega. O outro, lá do seu teclado, escreveu “Alain”.
Foi então que pensei em francês, e quando penso em francês penso na professora, que me ensinou (não sei se ela estava certa) que a pronúncia de Alain é alã. Portanto, o meu amigo Carlos Sena estava montado na razão ao me corrigir. O nosso Alain, embora a pronúncia do nome dele seja alã-in, carrega homenagem ao galã do cinema francês Alain Delon.
O leitor cai para o deboche, sei. Deboche, aliás, é galicismo, vem do francês débauche.
Para ser rigoroso neste fragmento de memória, devo dizer que não era propriamente sobre a situação difícil por que passávamos no jornal (e o jornal à época ia bem) que me transcorria o papo com o amigo Sena. (O meu francês para por aqui; eu não saberia dizer se “Sena” remete ao rio que atravessa Paris, la Seine.)
“Ô”, interpelei mal começamos a teclar, “tá comendo alguém por aí?” E parti logo para o lamento, bloqueando o possível meio otimismo que se delinearia na tela em consoantes e vogais só pequenas. “Desempregado, miséria desgramada, há muito não sei o que é boceta.” Assim mesmo, depravadíssimo leitor: eu previsível como de costume para os meus conhecedores.
Alain era entregador de jornal. Jamais compreendi a necessidade que tinha a empresa, que ia bem, com carros próprios estacionados no térreo da sede e no pátio da gráfica (própria), de contratar um operador de carrinho de mão, um veículo de tamanho que contrariava à larga o diminutivo, empurrado desde a madrugada, no sereno, e rodando boa parte do dia debaixo do sol arregalado de Goiânia.
Era figura cuja presença não se podia ignorar. Não apenas porque protuberante, como ressaltei acima.
Sim, entendo que o termo “protuberante” é inadequado (e insuficiente) para descrever uma pessoa. No início, minha intenção era empregar “proeminente” – também inadequado, vá lá –, mas, como me expresso, por hábito, com a mente voltada para quem lê, optei pelo consignado na ouverture. Quis evitar que o leitor, que pode até dominar com abuso o idioma de Marcel Proust, confundisse proeminente com preeminente.
Aquele vasto moço, 40 anos, por aí, fedia. Banho para ele era coisa de gente metida a besta. Para ter uma noção, pense você no cheiro daquele seu amigo que não há muito retornou da França, depois de profícuo período de estudo sociológico na Sorbonne. Não se pode ignorar tal pessoa.
Nem sempre Alain aparecia na redação. Geralmente fazia isso para acompanhar – sem convite – o dono do jornal quando, à cata de verba publicitária, o big boss (não é expressão francesa, leitor) levava algum agente público para conhecer as instalações e os destacados jornalistas do diário.
A despeito de não ter sequer o benefício da rima, Alain, à sua maneira rude e fedorenta, era também um galã, ainda que feio e suarento. Tinha o sol por testemunha do trabalho árduo a que se dedicava.
Fedia.
Sena teclou gargalhada. Eu falava da falta de grana para sair, tomar cerveja e pegar fêmea mesmo pouco exigente como as que Alain costumava traçar. Lembrei da vez em que o entregador seguiu o patrão até a redação, baixou o carão por trás dele, até quase tocar-lhe o ombro, e intimou: “Me dá dez reais aí.”
Pretendia um vale, um “adiantamento” do salário que já passava do quarto mês de atrasamento, embora a produção do jornal continuasse ininterrupta.
O dono virou-se subitamente, fingindo susto, a jogar para o alto a careca arrogante: “Dez reais pra quê?”
“Tô com necessidade de foder”, justificou-se Alain, em sua candura.
Com todo o patronal direito, o interrogatório prosseguiu. “Mas você quer comer mulher de dez reais?” Agora o espanto era real, ante a miudeza da quantia. O funcionário sentiu-se na obrigação de explicar, tímido de repente: “Não; é que eu queria reservar cinco pra cerveja.”
Eu me vejo, sempre, ainda a compartilhar algo com a professorinha: a asma com que arfava o seu francês. Ela me salvou da desmoralização da doença.
Por sinal, Proust também era asmático.

Hamilton Carvalho