quarta-feira, 28 de julho de 2010

Advertido por causa do “linguajar”, Hamiltão, mesmo furioso, não perde o rebolado. E usa duas palavronas em lugar de uma palavrinha de duas letras...



O bom amigo

Eu gosto de mostrar o pau, depois de matar a cobra (claro; sou bobo...). Creio que, ao fazer crítica, se deve dizer o nome do criticado. Há certos casos... Chega de teoria.
Fatos, vamos aos fatos.
Neste glorioso momento de cronicar (como diria um ex-editor da Gazeta, o Da Veiga), tenho em mente uma certa autodesqualificada pessoa. Mas não vou aqui nomeá-la.
Seria feio, seria como lavar a própria cueca no tanque do rival. Alguém poderia até pensar que tenho algum dodói muito íntimo, ao tornar público o nome de um desgraçado por causa de questões sem interesse nacional, possíveis meras ressonâncias de alcova.
E não é preciso. O sujeito é pé de pano, é arquétipo. Ao me lembrar da asquerosa existência do indivíduo, ocorreu-me a ideia de escrever sobre sujeitinhos que vivem cozinhando na pupila a mulher do próximo.
São pessoas cheias de atenção e bons préstimos, que se oferecem para “socorrer” a mulher do amigo quando uma ponta de fio se desprendeu da tomada ou quando é preciso substituir a borrachinha da torneira da pia da cozinha.
Neste último caso, o “bombeiro” recorta uma rodelinha do que sobrou de uma Havaianas que teve a correia quebrada e já está com o ponto de apoio do calcanhar corroído, e faz a adaptação. É mais barato e demanda mais tempo Aí, conversa vai, conversa vem...
O pé de pano é todo ele, factótum, na ausência do candidato a corno. É óbvio. Com o coitado presente, trata de altas teorias, cita Bill Gates e Fernando Gabeira, analisa a fusão de cervejarias e fala mal de algum desafeto da vítima.
Ainda assim – sem se oferecer para colocar o lixo na calçada ou emendar o arame do varal – trabalha para faturar a mulher, mesmo sem olhar para ela.
Envolve o marido em papo ecológico ou informático e impressiona a consorte com expressões pinçadas de texto frio de edição dominical de algum jornal diário, texto carregado de siglas e palavras modernas (inglesas) e chupado, por foca deslumbrado, de revista especializada.
O solerte papador de xandanga tomada em matrimônio por outrem costuma dar uma de aéreo. Sempre esquece quando o amigo está de plantão e resolve fazer-lhe uma visitinha exatamente naquele dia.
“Mas não é que só me lembrei agora?”, entoa quando a mulher abre a porta e informa que o marido não está. “Mas que cabeça a minha”, diz, batendo na testa, à espera de convite para entrar.
Em seguida, tira rapidamente do bolso uma balinha e a estende para a criança encardida e catarrenta que está agarrada à saia da senhora, fungando.
Se sentir que ela reluta em fazer o convite, pede água, faz perguntas cretinas e quer saber há quanto tempo a caixa de gordura está sem limpeza. Não perde tempo, o safado: quer dar uma olhadinha na caixa de gordura.
Em resumo, o pé de pano tem voz melíflua, é prestativo, adora criancinhas e anda sempre com caramelos na algibeira. Por gostar muito de animais, faz festas no vira-lata da família do outro toda vez que a visita.
Gosta de discorrer sobre autoajuda, a encher a boca com “autoestima” e outros termos sem sentido, já fora de moda, coisas a que nem Freud et caterva, no original, resistiriam.
Quando presencia pequenos desentendimentos entre mulher e marido, manifesta-se com salomônica sabedoria, ministrando conselhos com os quais insinua que o amigo deveria ser mais compreensivo.
É, portanto, um calhorda consumado, que ama a própria mulher e por nada do mundo viveria sem ela. Além disso, desconta nos filhos e no cachorro que tem os agrados que faz aos do alheio.
Ou seja, é o tipo de cara que eu, sem vacilar, mandaria tomar no meio do emunctório subcoccigiano. Sem mostrar o pau.

Hamilton Carvalho
(Gazeta de Goiás, n.º 117, 24/10/1999)

quarta-feira, 21 de julho de 2010

A objetividade subjetiva do salafrário faz com que ele se ache, ainda por cima, no direito de mostrar uma ponta de indignação...

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Depois de amanhã

Vou tentar tirar da cabeça a preocupação obsessiva com conjunção carnal (ou melhor, com a falta de) e seguir conselho de amigos: escrever sobre coisa séria.
Qual o quê. Talvez por irreparável dano psicológico, não sei distinguir o sério do não sério. Para mim, tudo importa – e entra tudo pelo mesmo ralo.
Esse negócio de entrar tudo... Pior é quando não entra nada. E pior ainda é quando você mesmo, otário, adia uma entradinha. Alguém já disse que foda adiada é foda perdida.
Viu? Lá vai uma... duas... três, acumulando feito loteria para quem não entrou no bolo, aliás, na tabaca. Prêmio acumulado? Jamais.
Mas, droga, de que é que estou a falar? Ah, é a obsessão, só pode. Daqui a pouco o leitor vai achar que sou um desviado. Tudo bem. Desde que se mantenha o “prefixo”.
Na presente situação de penúria sexual (no sentido da inconsumabilidade), fico a pensar em quantas adiadas dei. (Isto até parece latim: adiadas dei...)
O chato é quando você adia, adia, e acaba por comer o cozido por demais cozido, aliás, comido. Mais chato ainda é não comer o de-comerzinho nem anos depois.
Nas poucas vezes em que adiei eu o fiz sem querer. Por timidez, sei lá. Por medo de bater fofo, sei lá também. Chamar moça para trepar, ainda em fase de flerte, não é a mesma coisa que tentar tirá-la para dançar.
Dar chabu, nesse caso, não é tão aniquilador quanto ouvi-la declamar o portuga Fernando Pessoa (Álvaro de Campos):
“Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã... / Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã, / E assim será possível; mas hoje não... / Não, hoje nada; hoje não posso.”
Por que não? Ora, porque não quer, a filha da mãe. Porque a cantada que você aplicou deu uma atravessada. Porque a marca do carro que seu motorista particular dirige é Metrobus, ou Reunidas, ou Araguaia.
Algumas vezes, confesso, andei protelando. Só porque – acredite, leitor safado – sou monogâmico. Pratico, como Oswald de Andrade, a monogamia sucessiva.
Não, não é nada do que se poderia pensar: uma dama hoje, outra amanhã, outra depois, e assim sucessivamente. Não.
Sou monogâmico convicto, sem medo de chatice. Não existe orgasmo chato. É claro que as escolhidas, soltinhas, têm ajudado.
Quer dizer então que andei protelando de certa forma, com determinadas pessoas, que ficaram, digamos assim, como regras-três.
É uma calamidade quando, por descuido ou paixão excessiva, a gente fica na mão, sem gatinha de reserva. Acontece também que o sujeito da oração, abandonado mas cego de amor, não consegue enxergar ao lado uma dama toda oferenda.
Foi assim que certa – certinha – senhora me levou, de noitão, ao seu apartamento, após cerveja e caldo entornados em clima de velha amizade. Pelo menos assim interpretou a pureza de minh’alma, carente de solidariedade.
Depois de discutir conjuntura política (não acredito em mim, não, não acredito), dei tchau – a seco, até mesmo sem aqueles beijinhos babacas no rosto – e fui armar circo com enxovalhado cobertor.
A dama, cuja calipigidade sempre me causara frêmitos de tesão, passados poucos dias disse para uma amiguinha, em minha presença, que eu... Bem, que eu era um homem muito sério. Só não relatou o fato, e só eu entendi o deboche.
Eis em que entra a seriedade do mundo. Ela continua por aí, navegando em sua respeitabilidade de mulher bem-casada, achando, no íntimo, que foder não é uma coisa muito séria.
Hamilton Carvalho
(Gazeta de Goiás, nº 116, 17/10/1999)

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Hamiltão ataca de frente presunçosos que acham que podem “melhorar” a obra alheia. Aqui, estilos, métricas e... as implicâncias de sempre



A chave perdida

Meio que estuporado, sinto necessidade de revisitar (e revisar) alguns dos meus textos publicados. Meio que desmemoriado, às vezes não me lembro se já escrevi ou não sobre determinado assunto.
Então, inseguro e avesso a repetições que não acrescentam, saio à procura da chave do baú, que pode ser mesmo uma simples palavra.
... Quezinho mais inútil, hein?, esse depois do Meio. Mas o leitor entende: isso é coisa de estilista. No bom sentido.
Por falar em estilista (puxando para o outro sentido), lembro-me de Mário Jorge, bicha oxigenadíssima que trabalhava, como eu, para Abrahim, Irmão & Cia., em Manaus.
MJ era metido a compositor e quis musicar poema deste mísero cronista (que naquele tempo detestava crônicas, como hoje – só que não era obrigado a escrevê-las).
Sucede que então eu estava numa fase de transição do (penso) simbolismo para o parnasianismo, ou vice-versa, sei lá.
Só sei que, como hoje, eu ficava puto se alguém ousasse mexer no produto deste pobre contudo ponderado intelecto, que desavergonhadamente assume (e às vezes acha por bem manter) os seus erros.
Veja bem, rigorosíssimo leitor: MJ foi escolher logo um soneto em versos alexandrinos, cada qual com a cesura devidamente assentada na sexta sílaba.
Na verdade, só quero aqui demonstrar o quanto era exigente comigo, mas os versos bem que poderiam ser decassílabos. (Minha memória só se ocupa quase exclusivamente de uma coisa, nesta crudelíssima fase de abstinência sexual forçada.)
Não importa. O que importa é que MJ resolveu melhorar o soneto sonetíssimo. A convencida bichinha foi aveadar logo o troço mais caro para um bilaquiano: a chave de ouro. Em lugar dela, colocou lá um versão de pé quebrado.
Nunca fui bilaquiano, é fato. No entanto, prezava uma chavinha de ouro rigidamente metrificada. Então fiquei fulo. Para a coisa me matar só faltava a música fazer sucesso.
Como fez “Canteiros”, de Raimundo Fagner, bom moço que deve doar os direitos autorais a alguma entidade sem fins lucrativos.
O nordestino montou num poema de Cecília Meireles e substituiu um verbo por outro que ele deve ter considerado mais exato.
A autora de Mar Absoluto havia afirmado que vira (“tenho visto”) muitas coisas, menos a felicidade. Mundinho corrigiu: “... tenho tido muitas coisas...” Inclusive um processo nas costas.
A família da poeta – poeta que já fora chamada justamente de “a exata”, se não me engano pelo aprendiz de compositor Manuel Bandeira – sentiu que o criativo letrista não deveria ter “melhorado” o premonitório poema que, musicado por ele, virou hino de estudante de comunicação.
A canção de MJ não fez sucesso e, pelo que deduzo, se calou para sempre. Pelo menos, até hoje, não recebi nenhum – atenção, parceiros (de composição) que vieram depois –, nenhum direito autoral.
Certa tarde de domingo, como não havia na época programa do Faustão, fui aborrecer-me na casa do colega (de trabalho). Encontrei-o cuidando do mise-en-plis.
Depois da costumeira sessão de maledicências, com a participação ativa (meu deus) de todas as “trêfegas” presentes, tive que me submeter, ainda, a um show de interpretação de MJ, que deu de cantar a música de sua lavra (meu deus).
No que ele chegou à altura em que deveria estar a minha preciosa e máscula chave de ouro – ou seja, embaixo, no último verso do soneto –, caí em profunda depressão.
Atacado de autopiedade, concluí, e para sempre: “Ninguém me entende.”
Meio desmemoriado, meio estuporado, mas livre de queísmo, vou dar uma chegadinha a algumas das crônicas lá de trás – e revê-las com a circunspecção de sempre. Talvez assim consiga melhorar o estilo.

Hamilton Carvalho
(Gazeta de Goiás, nº 115, 10/10/1999)

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Texto convencionalíssimo. Sente-se nele, porém, o sopro do gênio...


O difícil de-comer

Minha vida de feirante não foi o que se poderia chamar de sucesso. É claro que eu, por mais bocó que seja, não esperava muita coisa de negócio tão pequeno. Mas as filhinhas (uma recém-nascida), a mulher e eu precisávamos comer – algo prosaico, porém imperativo.
A situação continuou difícil para mim. A concorrência de supermercados nas redondezas matava a feira, principalmente no que tange à venda de alimentos ditos não perecíveis.
Aos domingos havia muito movimento, mas só se faturava alguma coisa na parte em que se vendiam, por exemplo, carne de sol, farinhas, frutas e verduras, espelhinhos de bolso, pentes, águas de cheiro e roupas.
As vielas do setor de barracas fixas de secos e molhados serviam quase somente como acesso às outras áreas e para o passeio de donzelas sem o que fazer. (Só me falta dizer que sou donzel...)
A propósito: uma dessas donzelas, adeptas de shortinhos meia-bunda, em plena feira de ensolarado domingo encheu a mão com os meus colhões e apêndice cavernoso.
(Não é por nada, não, leitor curioso quanto a medidas, mas a palavra apêndice não expressa bem nem latitude nem longitude.)
Eu voltava da barraca de café, onde mandei ver beiju com manteiga. Duas garotas que vinham em sentido contrário se olharam com sorrisinho malicioso. (Quer dizer, isso de malícia só deduzi depois.)
Ao cruzar comigo, a mais próxima – morenona de belíssima testa venusiana – enfiou a mão entre as minhas coxas e a subiu, abarrotando-a de brim, testículos devidamente ensacados, pelos pentais e pênis.
Que mão. Que susto. Parei e fiquei teso, na ponta dos pés, todo arrepiado.
O leitor (ou a leitora, claro) já deve imaginar que sensação deliciosa me percorreu o corpo inteiro a partir do kit arrepanhado, desaforadamente seguro durante dois estonteantes segundos.
Às gargalhadas, as assanhadinhas se meteram feira adentro. Colegas feirantes, homens tão sérios, mangavam da parva figura que tentava recompor-se no meio da viela.
Como dizia eu, a situação não era nada boa. Nenhum barraqueiro acreditava que a situação poderia piorar. Piorou. O Grande Painho havia criado um “programa” que determinou o fim de minha carreira de feirante.
Com o maior despudor, o governo instalou ali mesmo, na Praça da Feirinha, um amplo armazém com produtos da cesta básica e precinhos paternais. Um acinte.
Até a “elite” que comprava em supermercado passou a pegar a fila governamental, gente metida a besta que já tinha substituído o “fazer feira” pelo “fazer supermercado”. (Fila é uma espécie de fetiche brasileiro; sem ela, nem sala de espera de hospital público tem graça.)
Mesmo para ver marmanjas com shortinhos meia-bunda era necessário ficar à porta do armazém. O setor das barracas fixas, feitas de madeira e zinco, ficou parecendo uma daquelas cidades fantasmas de filme norte-americano.
Se antes vendia pouco, agora evoluí para não vender absolutamente nada. Mas, tinhoso, todo dia estava lá, na tocaia de freguês. Quando aparecia alguém numa ponta da viela, meu coração anelava mais que o de virgem alencariana.
Aliás, eu era meu único “freguês”, pois ia levando da barraca para casa o óleo, o arroz, o feijão e – quando ainda não estava em falta no mercado – o leite em pó de quase todo dia.
Os colegas que conseguiam manter a freguesia do fiado ainda aguentavam. Eu, coitado, nem fiado. Logo no começo, uma mulher, recomendada pelo antigo dono, me levou quase a metade do estoque. Fiquei feliz, porque ela era “boa pagadora”. Até hoje.
No desespero, para ganhar qualquer coisinha, minha companheira foi tentar alfabetizar a mulher de Bahia, o “peidófilo” apresentado ao leitor na semana passada.
(Meu intelecto é pequeno, mas honesto: a palavra peidófilo foi cunhada por Alessandro Carrijo, um dos diagramadores desta página.)
Não deu certo. Se fosse hoje, eu diria da mulher do Bahia: como computador defeituoso, ela não “salva” nada. O que minha mulher ensinava em um dia, com paciência de programador, no outro dia já estava “deletado”.
Desse modo, Bahia viu o seu segundo grande sonho também não se realizar. Do primeiro grande sonho o leitor se lembra: o feirante queria peido – nem que fosse um peidinho só – da amada.
Por mais prosaica que seja a afirmação, as filhinhas, a mulher e eu precisávamos comer. Foi assim que, ao me preparar para mais um “dia de trabalho”, contemplei as prateleiras e fiquei profundamente desolado.
“Meu deus”, angustiei-me, “comemos a barraca.”

Hamilton Carvalho
(Gazeta de Goiás, n.º 114, 3/10/1999)

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Há certos estados de espírito que até se explicam, mas Hamiltão procura poupar o leitor dos males que o afligem


Questão de gênero


Ao sair de casa, hoje, dei-me conta de viver um apocalipse mental, a derramar mau humor por todos os poros. Letícia, a gata, nem ousou me acompanhar até o portão.

Em semelhante estado de ânimo, fico com os pensamentos contaminados pelas impurezas da vida. Se algo belo me relampeia na cachola, tenho de sujá-lo de realidade.

Foi então que, ao me entortar na curva da Ladeira do Vento, vi a figurinha encantadora de uma moça. Outra pessoa, e em estado normal, diante de tal lindura se sentiria transportada ao Éden, a alma trespassada de luz.

Eu não. A mente empapada de sujeira pegou a pobre ninfa e a levou para a sordidez do quarto de um velho fauno.

Pensei, trevoso: “Eis o tipo de mulher que eu queria peidando debaixo do meu cobertor.”

Cheguei à parada de ônibus a exalar gás pelas narinas. Em meio à lembrança de flatos e até de explosivas diarreias, surgiu na tela obscena da memória a imagem de um homem chamado Bahia.

Na cidade há duas feiras famosas, a Feira Grande (evocada por Elomar: “Já que tu vai lá pra feira” etc.), que se espalha no Centro, e a Feirinha, que fica do “outro lado” da rodovia e é enorme, ao contrário do que poderia sugerir o nome.

Aperreado, vendi a moto (adquirida em Goiânia) e comprei uma barraca de secos e molhados na Feirinha. O “estabelecimento” era fixo, de madeira e zinco, e ficava aberto durante toda a semana, embora a feira propriamente dita se instalasse no domingo.

Foi aí que conheci Bahia, sujeito atarracado, forte e luzidio, ex-hóspede da penitenciária de Salvador. Apesar de aparentar certa maturidade rude, era pessoa cândida, de desconcertante franqueza.

A barraca dele e a minha ficavam em lados opostos num cruzamento de vielas do setor da praça destinado àquele tipo de comércio. Como o movimento era muitíssimo fraco nos dias úteis, às vezes trocávamos palavras, de esquina a esquina.

Bahia, no entanto, não era de conversar muito. Ficava lá, sentado entre sacos e caixas de cereais, parecendo um buda. Raramente botava os pés fora do seu reino.

Eu, quando não lia ou escrevia, circulava um pouco por ali, inquietamente, desacostumado com a falta de ação. Numa dessas inquietudes de agitador de rua, Bahia me chamou com um aceno.

Quando parei diante dele, o homem, inclinando-se por cima de uma caixa cheia de arroz goiano, fez gesto para que eu aproximasse o rosto. Então, muito sério, com voz baixa e grave, perguntou: “Mulher peida?”

O leitor, de gargalhada fácil, não há de entender – mas eu não ri. Ele estava realmente preocupado e interessado em saber a verdade. Fiz o que pude para esclarecê-lo.

De minha barraca, fiquei a observá-lo. Ele estava pensativo, olhava para o meu lado, ajeitava grãos de feijão na borda de uma das caixas, mexia aqui, mexia acolá, olhava de novo para mim. Estava desassossegado. Não era mais buda.

Convocado com outro aceno, postei-me diante de Bahia. Ele se inclinou, pediu que me achegasse mais e insistiu: “Tem certeza que mulher bufa?” Antes que eu dissesse qualquer coisa, confessou: “Pois a minha não.”

O intrigado barraqueiro estava casado havia alguns meses. Antes de comprar barraca e se casar, passara boa temporada na prisão, onde por certo se habituara à sinfonia noturna de peidos.

Segundo ele, nunca ouvira ou sentira a mulher peidar. Aquilo estava matando o homem. Dias seguidos tocou no assunto. Estava obcecado por um peido feminino.

Tentei ajudá-lo. Recomendei que à noite cozinhasse bata-doce, amassasse o tubérculo no leite quente e oferecesse a papa à mulher. Não havia – assegurei ao aflito marido – toba que segurasse.

No dia seguinte, Bahia estava lá, entre caixas e sacos de cereais, mais buda do que nunca. Cheguei, todo álacre: “E aí, como foi?”

“Não dormi nada”, resmungou. Só então reparei que ele estava com os olhos vermelhos, pálpebras maceradas. Parecia uma tempestade armada, dada a expressão de mau humor com que me fitou.

Ali estava um homem completamente vencido. “Passei a noite toda esperando a mulher bufar, mas nem o diabo da batata adiantou.” Aí, amuado, meio nervoso: “E você ainda vem me dizer que toda mulher peida...”

Parece que então lhe ocorreu súbita ideia. Olhou-me com um pequeno brilho nos olhos, como se nem tudo estivesse perdido: “Tua mulher peida, hein, hein?”

Bem, leitor, neste apocalipse...


Hamilton Carvalho

(Gazeta de Goiás, nº 112, 29/8/1999)