quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Hamiltão numa de Indiana Jones... Não, não: de Davy Crockett. Ou melhor: de Daniel Boone. Ah, deixa pra lá. Um safadinho mesmo


Um nefelibata


A paixão pela menina me pegou pela planta dos pés e me levou às alturas.
O leitor que visitou este tiquinho de página na semana passada sabe de quem falo. Da vizinhazinha apelidada de Imbu Cabeludo.
Não estava fácil chegar perto dela, eu sempre cercado de irmãs hostis àquela beleza rústica, de pele pêssega, acetinada, e ela sempre ao lado de Boi-Bufa, o peidão.
O mano dela, troncudo, ganhou o apelido porque não tinha mesmo compostura. O verbo bufar, na minha terra, conjuga-se como peidar. A palavra “boi”, insinuando búfalo, era só deboche.
Quando se aproximava da turma, vinha junto com o desgraçado a fetidez de muita batata-doce já digerida mas retida nas tripas.
Por aquela época, meu esporte preferido era caçar calango. Depois que Imbuzinha se instalou com a família na casa da direita, transferi a paixão – da carnificina de réptil para ela.
A sanha era outra. Queria transformar-me em anfibiocida: matador de perereca.
Por falar em réptil, lembro-me de que foi por essa época que tive um contato direto com cobra. Ah, não, peraí...
O leitor já quer cair para o lado da malícia. Reafirmo o que disse na semana passada: mesmo toquinho de gente, eu já era macho, e convicto.
Certa noite, enquanto Imbuzinha e turma arquitetavam nova brincadeira, estirei-me preguiçosamente na lisa e morna calçada, camisa desabotoada.
Ali, à noite, sentindo as sobras do calor do sol da tarde, deixei-me modornar, como só a gente de minha terra sabe fazer.
Algo frio. Um abraço frio. Um abraço sem ninguém com ele. Sem braços. Sem pernas. Comprido, envolvendo-me o peito por dentro da camisa.
O alarme, alguém gritou. “Uma cobra, uma cobra nele.” O moleque apontava para mim.
Quando consegui associar o grito com a coisa fria em torno de mim, pulei. A coisa caiu, verde, sessenta centímetros.
Um vizinho, adulto, matou a cobra. Depois, pesaroso, sacudiu a cabeça: “Tadinha, nem venenosa era...”
Eu não tinha remorso quando chacinava calangos no matinho que ficava nas redondezas do necrotério, embora Jeroflê vivesse correndo atrás da gente.
Ah, Jeroflê... Era quem cuidava (meu deus) do necrotério. Talvez algum dia eu fale dele, hoje não.
Cacemos, pois, perereca.
Excitados depois de ouvir historinhas de terror, noitinha dessas em que há lua solta no céu e brisa cálida trazendo cheiro de mato e de pecado, fomos brincar de tonga, isto é, de esconde-esconde.
Os meninos costumavam esconder-se mais longe, no mato ou em algum soturno canto de muro. As meninas ficavam em cantinhos mais próximos da “sede” da brincadeira.
Em vez de continuar correndo e cair no mundo como os outros babacas, parei, voltei todo pontinha dos pés e dei de seguir a Imbu Cabeludo.
Ela entrou em corredor sem saída num lado da construção de Vanderval. Eu também. Ela sentiu bem a “coincidência” e me ordenou que ficasse quieto.
Aquele cheiro de cimento fresco, elazinha perto de mim, euzão rasgando o cós do calção...
Meu pai tinha uma garagem para caminhão em frente da propriedade de Vanderval. Eu estava com a chave dela, pois passara o fim de tarde a mexer em um rifle que ficava guardado ali. [Um Winchester de 15 tiros.]
Eu, sôfrego, roçava os lábios na penugem do rosto de Imbuzinha, passava os dedos na rechonchudinha lá embaixo, lanhava-me nos tijolos nus da parede...
Meu deusim do céu, a danadinha estava sem calçola.
O sedutor aqui gemia, implorava. “Me dá. Me dá, hein, me dá...” Ela parada, sem emitir nenhum som, ali, esperando, suponho – hoje, tarde demais –, ação mais efetiva, aguda, penetrante.
Mas o pidão só pedia, passando a mão: “Me dá, hein, me dá...”
O babaca que estava de tonga nos achou. Caí das nuvens e perdi a chave da garagem. E ainda levei surra, dia seguinte, quando meu pai precisou do caminhão.
Não apanhei com fleuma. Fiz escândalo. A vizinhança toda ouviu os berros que soltei debaixo da taca, feito menina histérica. (Feministas, pelo amor de deus...)
Envergonhado, passei a evitar a Imbuzinha. Se saía de casa era para me meter no mato atrás de calango.
Pois é, leitor solidário. Caí das nuvens, onde me colocara a paixão que me pegou pela planta dos pés.
Mas, como refletiria personagem de Machado de Assis, antes cair das nuvens que de um terceiro andar.

Hamilton Carvalho
(Gazeta de Goiás, nº 88, 14/3/1999)

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