quarta-feira, 7 de abril de 2010

Às vezes o autor exorbita em suas opiniões. No caso, aqui, quando se refere a Basílio da Gama


A vendedora de sorvete

Ao abrigo do vento curvilíneo que gelava o Terminal Padre Pelágio, a vendedora de sorvete tinha diante dos olhos O Guarani, de Zé de Alencar.
Lembrei-me de lembrar: ao chegar à Redação, telefonar para a primogênita. A amorável filha deste fecundo cronista prepara-se para o vestibular, e era preciso saber a quantas andam as leituras delazinha.
“Pai, você devia me trazer mais livros”, reivindicou Elza, depois que lhe fizera a recomendação de ler, ao mesmo tempo, mais de um, para poder vencer a chatice de certos textos impostos para o concurso.
Se uma “profundidade” começa a aborrecer, deve-se passar para outra “profundidade”. O tédio de uma anula – ou pelo menos arrefece – o tédio de outra.
Minhas filhas são frequentadoras assíduas destas minhas leviandades (embora há quem diga que tal tipo de leitura não é recomendável para adolescentes) e não compreendem por que motivo comissão de vestibular tem tendência para o chato.
No entanto, elas não sabem, por causa da falta de preparo e da bitola imposta pelos cursos, que não se podem comparar coisas menores, como as que registro aqui, com a boa literatura, e boa literatura não é necessariamente coisa chata, ou não devia ser chata de jeito nenhum.
É torturante, para o jovem carente de informações que as escolas não fornecem, ter de encarar, na marra, uma montanha de livros escritos em épocas tão distantes do mundo em que se vive.
Ou então ser forçado a ler calhamaços cheios de digressões sobre coisas de que os garotões já estão cansados de saber.
Filosofias, conceitos, preconceitos, canapés e canapês. A molecada “fica” nos cantinhos escuros (ou mesmo claros), enquanto a senhora de Alencar inadvertidamente deixa aparecer a pontinha do pé... calçado. O máximo de tesão.
João Ubaldo Ribeiro acaba de lançar livro capaz de fazer a alcova de Lucíola, a prostituta, ficar mais entediante que as praças do Projeto Cura, em Goiânia.
Soube de gente que tomou horror de Camões exatamente porque havia imposição para exame de admissão ou vestibular. [O aterrorizante exame de admissão era uma espécie de vestibular para passagem do primário ao ginasial; tudo isso teria mudado...] Não se deu ou não se dá a base necessária para que o estudante pudesse ou possa “fruir” o texto do portuga.
Em vez de abrir caminho para o jovem chegar ao grande poeta, o “mestre” faz é fechá-lo, traumatizando um moleque que não consegue botar na ordem direta um verso de Os Lusíadas.
Mas Camões vale sempre. Seria bom se as escolas colocassem a meninada em contato com a lírica do Caolho. Depois com Os Lusíadas, juntamente com informações históricas e gramaticais. (Era preciso, no entanto, que professores vencessem, antes, o próprio analfabetismo.)
Agora, O Uraguai... Não sei o que deu nos responsáveis pelo vestibular da Universidade Católica de Goiás para indicar essa porcaria de Basílio da Gama que não serve nem como “documento histórico”.
Já a Universidade Federal, depois de sucessivas besteiras – como a de “indicar” brochura broxante do solecista contumaz Edival Lourenço –, acerta em cheio, embora atrasadamente, com o livro de poemas de Manuel Bueno Brito Candeia de Canto, belíssimo, redondo a partir do título.
Minha bela Elza chegou a pensar em fazer jornalismo. Não digo nada. Não procuro influenciar. Afinal, currículos por aqui são todos mal-ajambrados.
Para você sair sabendo do curso de jornalismo da UFG, por exemplo, tem de entrar sabendo. Ou se dedicar para aprender, na prática, os rudimentos do ofício.
O curso, ocupado com filosofices, não dá importância sequer à redação – ao ato de redigir, à produção do texto. (São de matar aqueles “trabalhos em grupo”, feitos, geralmente, por um só.) Por isso, o que mais se vê é gente com minhocas filosóficas na cabeça escrevendo troncha e porcamente. Uma meleca só.
(Ad hoc. Quando trabalhava em outro jornal, li coisas assim: “O governador visitou in loco o local onde se localiza a favela.” Deixei o repórter – que já tinha alguns quilômetros em jornal, e devidamente diplomado – na maior indignação quando corrigi: “O governador visitou a favela.” Disse que eu mexera no “estilo” dele.)
Meu deus, que logorreia. Tudo isso por culpa da vendedora de sorvete, a matar o tempo lendo O Guarani, ao abrigo do vento gelado que levava para longe habituais fregueses.

Hamilton Carvalho
(Gazeta de Goiás, n.º 97, 16/5/1999)

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