quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Indiscreto, Hamiltão invade salão de beleza, restaurante e até banheiro. A genialidade do cronista pede que o leitor releve uma ou outra bravata...


A cor e o gosto das palavras


Não entendo por que algumas mulheres, quando ganham certa quilometragem, mudam a cor do cabelo para acaju. Sinto que tal tonalidade não combina como moldura de rostinho amado. Está mais para espiga de milho ou móvel de madeira.

Aliás, o jornalista Nestor de Holanda, em livrinho de 1963, já dizia que dama do society não aceitaria que se traduzisse a tintura do francês (acajou) para o português: mogno. “Cabelo acaju é uma coisa; cabelo mogno não dá ideia do que o cabeleireiro cobrou.”

É o mesmo caso de restaurantes, cuja comida, segundo Holanda, fica ótima “à la carte” ou “à la minute”. Os restaurantes seriam obrigados a baixar os preços se a gororoba que servem fosse “à escolha” ou “feita na hora”.

Ah, ia esquecendo. O livro de Nestor de Holanda se chama A Ignorância ao Alcance de Todos – Cartilha da Analfabetização sem Mestre.

Você, leitor ilustrado, naturalmente não gosta de emprestar livro, o que poderia servir para ajudar na difusão da cultura. Mas é aquilo. Ninguém gosta de devolver.

Emprestar livro não é também coisa de que eu goste. No entanto, fiz o maior esforço para emprestar a cartilha de Nestor, mas não encontrei coleguinha que aceitasse. Parece que todos sentiam que não tinham necessidade...

Você sabe o que é semicúpio? Holanda pergunta e não quer resposta: “Qual a dama que, tendo fundos para comprar apartamento, vai avisar ao construtor que não se esqueça do semicúpio?”

Como vê, a peça é simplesmente bidê (bidet). Isto me faz lembrar do tempo em que eu, menino sonhador, sempre que visitante calipígia entrava no banheiro lá de casa...

Bem, não sei se confesso... Ah, vá lá. Eu sempre procurava me colocar do ponto de vista do bidê. Parecia até que meus olhos esguichavam.

Holanda diz que a polícia gosta de usar cassetete (casse-tête), sobretudo contra estudantes. (Você percebe, atento leitor, que, apesar de o livro ser da década de 60, faço este registro com verbo no presente?)

“Com esse aparelho de massagem”, continua Holanda, “cada sherlock se sente herói nacional.” Ora, se alguém chamar o “instrumento de coragem” de bastão, “vai levar tanto cassetete na cabeça que acabará comunista”.

Coisa de doido. Até hoje fico arrepiado quando vejo aqueles pesados porretes pendurados na cintura de soldado. É exibição gratuita de violência.

Certa vez, anos atrás, vi um grupo de cinco jovens que vinha da Casa das Três Irmãs. (Você se lembra? Talvez por desavença entre putas, a loja de xandangas passou a ser conhecida como Casa das Duas Irmãs.)

Quatro dos marmanjos agrediam o quinto, que era meu irmão caçula. Eu, que estava num táxi, provavelmente vindo de alguma igreja, mandei o motorista parar.

Bravo como sempre, encarei os agressores, um dos quais empunhava cassetete de borracha com um prego atravessado à guisa de guarda.

Arrebatei o “instrumento de coragem” das mãos do “amigo” do irmãozinho (já putanheiro) e dei uma lição de pancada aos desgraçados, botando-os para correr. Macho, e com alguma modéstia, está aqui. (Muita modéstia é coisa de fresco.)

Voltando a outro bravo nordestino, Nestor de Holanda. Ele faz, naquela espécie de manual de redação, brilhante análise sobre o uso de galicismos. A certa altura pergunta, e não quer resposta: “No Brasil, haveria grã-fino que se sujeitasse a comprar ‘Mercedes-Benz’ por seis milhões para guardá-lo na autococheira?” Se o dito grã-fino fosse português, acharia normal.

Penso que não podemos “absolutizar”. Há determinadas palavras que ficam melhor mesmo é em francês. Compare, leitor devasso, e escolha: boquete ou pipe?

Observe esta expressão horrenda: “pagar um boquete”. E procure sentir como fica esta outra no biquinho de gatinha assanhada: “rémunérer une bouchette”...

Mas acaju, amada, acaju... Não, querida, não queira mais saber de cabelo mogno.


Hamilton Carvalho

(Gazeta de Goiás, nº 70, 2/8/1998)

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